Hitlher e os “Cristãos”

Hitler deixa a Marine Church em Wilhelmshaven
Ela sempre chega cedo, bem antes do culto começar. Assenta-se habitualmente em um dos bancos dianteiros, próxima ao púlpito do pastor. Entra com sua Bíblia, cabelos presos em um coque. Retribui com sorrisos afáveis os cumprimentos de quem passa por ela. Embora esteja há muitas décadas no Brasil, vê-se na sua disciplina que é alemã: nunca se atrasa, dá fielmente o dízimo, é assídua na escola bíblica dominical e vai regularmente aos dois cultos de domingo, o matutino e o vespertino. A D. Magda* é, enfim, uma octagenária simpática, de uma fé tranqüila e sólida que todos os seus irmãos presbiterianos respeitam.
Essa era minha opinião sobre essa velhinha cordial.
Até o dia em que o professor do grupo de estudos bíblicos gentilmente oferece a cada um dos alunos um livro de teologia.
Dias depois de dar o livreto aos alunos, o professor – o meu pai – recebe uma carta em casa. Era da D. Magda. Ela lhe escrevera dizendo que se sentia profundamente ofendida com o fato de um irmão da Igreja lhe presentear com um livro de Dietrich Bonhoeffer. Disse que rasgara o livro e que o jogara no lixo. Ela não podia tolerar nada que viesse de um homem que tentara matar Adolf Hitler. E fez uma defesa apaixonada de Hitler e de como o Führer representara a esperança e a alma germânicas.
Eu jamais saberia que D. Magda era uma nazista se ela não tivesse se manifestado sobre Bonhoeffer – um teólogo refinado, que foi preso e executado por ter participado de um complô para assassinar Hitler.
A reação de D. Magda – muitos anos após a queda de Hitler, e sem nenhuma pressão externa que a impelisse a tanto – é emblematicamente ilustrativa da ligação entre o cristianismo e o nazismo.
Infelizmente, trata-se de apenas um entre milhões de exemplos da inércia que caracterizou o comportamento dos cristãos alemães diante do nacional-socialismo. Mais do que isso, é um contundente argumento contra aquilo que Steigmann-Gall 1 chama de “um dos maiores truísmos dos últimos 50 anos”: a insistência de que o nazismo foi um movimento anti-cristão – noção que Olavo de Carvalho e Dinesh d’Souza divulgam recorrentemente.
Ao contrário de Stalin – cujo ateísmo é pouquíssimo contestável – a fé de Hitler é algo que suscita grande debate.
Hitler foi criado e educado dentro da religião católica. Isso, é certo, não faz de ninguém um católico, assim como os estudos em um seminário na Geórgia mão impediram que Stalin se tornasse ateu. Mas Hitler jamais negou publicamente a fé católica. Muito se discute se isso não seria uma estratégia para melhor manipular as massas. Contudo, ele poderia ter negado a fé a qualquer momento, até porque muitos nazistas proeminentes eram abertamente anti-cristãos. Stalin não perdeu a obediência da população por se afirmar ateu.
O Führer, por inúmeras vezes, usou de linguagem cristã para defender suas ideias. Por exemplo, quando liderou a Noite de Cristais (1938), Hitler evocou a passagem em que Cristo expulsava mercadores do templo (Mateus 21: 12, 13). Em Mein Kampf 2, ele escreveu:
“Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.”
É claro, muitos dirão que não se pode levar em consideração que um fanático amalucado como Hitler diga estar seguindo ordens divinas. Ok. Mas por que as pessoas que assim argumentam não vêem problema algum que Josué, Davi e outros “heróis” bíblicos tenham dito coisas semelhantes antes de dizimar jebuseus, cananeus, filisteus, amorreus, etc ?
O que complica ainda mais o entendimento da questão é que Hitler também emitiu várias declarações anti-cristãs, e que atividades religiosas tenham sido restritas na Alemanha Nazista. Mas há evidências que sustentam que Hitler era mais anti-clerical do que propriamente anti-religioso: ele não via com bons olhos que instituições religiosas – como a Igreja Católica ou as Igrejas Protestantes – tivessem uma autonomia que lhe escapasse. O que o incomodava não era a religião em si, mas o fato de que padres e pastores pudessem ter uma ascedência fora do seu controle: tanto assim o era que Hitler estimulou ativamente o movimento protestante Deutsche Christen, liderado pelo pastor Ludwig Müller.
Paralelamente ao estímulo à organização de uma nova denominação reformada, Hitler se encarregou também de assinar acordos com líderes católicos e protestantes, que prestaram lealdade ao Führer e que se silenciaram ante as barbaridades do regime. Segundo Paul Johnson 4, dos 16.000 pastores alemães, pouquíssimos deles foram presos por oposição a Hitler. A Igreja Católica, por sua vez, não excomungou nenhum agente SS pelos seus crimes. Durante todo o regime hitleriano, a Igreja Católica excomungou apenas um líder nazista, Joseph Goebbels. O motivo ? Ter-se casado com uma protestante divorciada. Enfim, as alianças do Vaticano com o Reich e outros regimes totalitários são fartamente documentadas e já foram objeto inclusive de desculpas papais.
Mas a questão que me parece a mais fundamental não é a fé de Hitler, de Goebbels ou de Goring. Isso quase chega a ser um ponto periférico. É fato: os líderes nazistas não perpetraram as atrocidades sozinhos. Eles tiveram o apoio de milhões de alemães que eram, na sua esmagadora maioria, cristãos. A pergunta crucial é: por que diabos os cidadãos cristãos colaboraram com o nazismo ?
Antes, porém, convém fazer uma digressão. Um crente logo dirá que não se pode dizer que é um “verdadeiro” cristão quem apóia nazistas. O mesmo argumento pode ser usado por um muçulmano ou um judeu que recusam que o 11 de setembro e o assassinato de Yitzhak Rabin tenham sido respectivamente perpetrados por pessoas pertencentes à mesma religião que eles. O mundo seria um lugar muito bom se só existissem “verdadeiros” cristãos, “verdadeiros” judeus, “verdadeiros” islamistas…
Se uma nazista como a D. Magda se declara cristã, que razão tenho eu para duvidar da sinceridade da sua fé ? Segundo Paul Johnson (historiador católico), 23% dos oficiais da SS eram católicos praticantes (daqueles que se confessam toda semana) 4 – como contestar a fé deles ?
Para todas as religiões, há uma dissociação entre o ideal e a prática real. Coppola mostrou isso de maneira magistral na seqüência final d’O Poderoso Chefão I, em que Michael Corleone, um católico convicto, batiza seu filho e reafirma um a um os dogmas católicos – enquanto isso, seus capangas promovem um banho se sangue.
Além do mais, como lembra a historiadora Doris Bergen 3, há uma diferença entre uma categoria histórica/institucional e as definições “ideais” que os grupos estabelecem para seus próprios membros. “Religião” não diz respeito apenas a uma “crença” individual (algo inacessível a historiadores), mas inclui também, e principalmente, ritos, tradições, instituições e a vida em comunidade. Por isso, pode-se dizer que sim, a Alemanha nazista era um país cristão, majoritariamente protestante – os dados estatísticos e históricos o demonstram 3. Sob o regime nazista, quarenta milhões de alemães eram protestantes e vinte milhões eram católicos 4.
Ao se deparar com a história, o leitor honesto constata forçosamente quão inconsistente é a frase malandramente atribuída a Dostoiévski (“se Deus não existe, tudo é permitido”). Não é a devoção a Deus que dá senso moral ao homem – o Padre Tiso (sanguinário ditador eslovaco) que o diga.
A verdade é que qualquer debate sobre a influência da religiosidade sobre o comportamento moral é abortado quando se deixa de reconhecer que crimes hediondos e boas ações foram cometidos tanto por pessoas apegadas a um teísmo (qualquer que seja a religião), quanto ao ateísmo. Estabelecer convenientemente um subgrupo utópico dentro do qual só existem virtudes e jogar todos os vícios para longe da sua própria crença (ou não-crença, no caso dos ateus) não ajuda em nada na compreensão das relações entre a moralidade e a cultura religiosa.
E a história também que mostra que a resistência de cristãos – católicos ou protestantes – foi uma deprimente exceção, e não a regra 6. Os poucos valentes que se rebelaram – como Bonhoeffer, o padre Lichtenberg, ou Marga Meusel – receberam pouco ou nenhum apoio de seus irmãos de fé 6. E não apenas na Alemanha reformada: veja a França de Pétain ou a Espanha de Franco.
Por que tamanha covardia? Por que o silêncio cristão foi a regra?
Por que os católicos e protestantes não agiram como os Testemunhas de Jeová? – esses sim fizeram corajosa oposição a Hitler e, por isso, foram sistematicamente perseguidos. Muitos (um terço deles) morreram nos campos de extermínio4. Por que católicos e protestantes, em sua maioria, colaboraram?
A resposta – se é que existe – pode advir da constatação evidente, mas por demais olvidada, de que não foi Hitler quem inventou o anti-semitismo. O ódio e o desprezo a judeus foi cultivado e incentivado pela Cristandade durante séculos. O caso Dreyfus, na França de 1898, é apenas um exemplo histórico visível do anti-semitismo abraçado por cristãos.
E, na abjeta relação do cristianismo com o anti-semitismo, o protestantismo tem uma parcela de culpa que não cabe aos católicos. Afinal, o próprio fundador da Reforma – Martinho Lutero – foi talvez o anti-semita mais importante da história.
Lutero escreveu um livro (“Sobre os judeus e suas mentiras” 3) dedicado inteiramente a atacar israelitas. Os textos e atitudes de Lutero contra os judeus eram francamente apreciados pelos fascistas e o próprio Hitler tinha profunda admiração por Lutero. A Noite de Cristais não ocorreu por acaso no dia 10 de novembro de 1938 – era o aniversário de Lutero e os nazistas queriam homenageá-lo. Julius Streicher (editor nazista), no julgamento de Nuremberg, chegou a dizer que Lutero estaria ali no banco dos réus se estivesse vivo. E estaria mesmo. Basta ler um pouco do que Lutero escrevera:
“Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas… Em segundo lugar, as suas casas deveriam ser destruídas e arrasadas… Em terceiro lugar, deveriam ser privados de seus livros de orações e do Talmud… Em quarto lugar, seus rabinos devem ser proibidos de ensinar sob pena de serem mortos, se não obedecerem… Em quinto lugar, os privilégios de viagens e de um passaporte deveriam ser absolutamente proibidos aos judeus… Em sexto lugar, deveriam ser impedidos de fazerem agiotagem… Em sétimo lugar, que aos jovens e fortes judeus de ambos os sexos sejam dados manguais, machados, enxadas, pás, rocas e fusos e que eles ganhem o seu pão com o suor de seus rostos… Deveríamos expulsar os preguiçosos velhacos para fora de nosso sistema… Portanto, fora com eles… Para acrescentar, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não lhes serve, encontrem então um melhor, de maneira a que vós, e todos nós, sejamos libertos desta insuportável carga diabólica – os judeus.” 3
Portanto, Olavo de Carvalho mente descaradamente ao dizer que o “evolucionismo de Darwin foi o pai do nazismo”. O nazismo bebeu da fonte do anti-semitismo cristão, como o de Lutero. O nacional-socialismo não foi um movimento de uma maioria anti-cristã 3 e a D. Magda está aí para lembrar esse fato. (Fico pensando: se mais de 60 anos depois da queda de Hilter, depois que todas as barbaridades do nazismo foram expostas, a D. Magda ainda fica com raiva de quem ataca o Führer; imaginem o que essa boa prebisteriana não era capaz de fazer nos anos 40…)
O nazismo nunca foi materialista como o stalinismo1, outra ideologia assassina. Olavão quer nos fazer crer que o que um naturalista inglês escreveu sobre tentilhões de Galápagos teve mais influência no surgimento do nazismo do que os textos hidrófobos de Lutero.
Não, não foi à toa que o nazismo surgiu na Alemanha reformada – e o estupendo filme “Das Weisse Band”, do austríaco Michael Haneke é magistral ao mostrar em que tipo de ambiente religioso cresceu a geração responsável pelo nazismo.
Aliás, não é nem um pouco casual que ainda hoje exista anti-semitismo entre evangélicos. O exemplo mais eloqüente é o de Billy Graham, evangelista que é um dos homens mais respeitados dos EUA e que ficou encalacrado quando uma conversa sua com Nixon veio à tona.
É claro, o anti-semitismo de Lutero não é sequer mencionado naquele filme bonitinho com galã bonitão. Lutero era um facínora hediondo, que pregava o ódio inclusive contra cristãos não-católicos que não se alinhavam com ele. Os anabatistas, grupo que derivou na atual Igreja Batista, foram cruelmente perseguidos por Lutero e por Calvino. A desonesta hagiografia cinematográfica de Lutero tampouco expõe sua tristemente célebre frase, quando o ex-monge se aliou aos nobres contra lavradores pobres nas revoltas dos camponeses: “Mate-os como cães raivosos!”. Mais de cem mil morreram pela repressão dos soldados luteranos.
Mas deixemos os mortos em paz. Esqueçamos Lutero, Calvino, Hitler, os nazistas e a barbárie anti-semitista. Deixemos D. Magda seguir sua pacata vidinha de fé protestante. Um dia, ela morrerá. O pastor dirá palavras bonitas sobre seu caixão. Como tantos outros, ela também irá para o céu. É para lá, afinal, que vão os crentes sinceros.
* O nome da senhora foi mudado.
Referências
1. Richard Steigmann-Gall. The Holy Reich.
Para todas as seguintes, disponho da versão em pdf e posso enviá-las a quem se interessar:
2. Adolf Hitler. Minha luta (Mein Kampf) (em inglês)
3. Doris L. Bergen. Nazism and Christianity: Partners and Rivals? Journal of Contemporary History Vol 42(1), 25–33.
4. Paul Johnson. The history of Christianity.
5. Martinho Lutero. About the Jews and Their Lies. O trecho citado neste texto foi extraído daqui. Agradeço ao Diego e ao Ravick, proprietários do Os amorais .
6. Victoria Barnett. The role of the churches: Compliance and confrontation. Shoah Resource Center.
Fonte: A Terceira Margem do Sena


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